Alquimia Clandestina e o Trono de Vidro: A Lendária
Trajetória do Guarapan nos Balcões de Minas
por Henrique Oliveira
Belo Horizonte– Para quem frequenta as estufas de salgados
e tradicionais lanchonetes da Grande BH, o ritual é sagrado: um pastel frito na
hora acompanhado de um refrigerante Guarapan trincando de gelado. Mas o que hoje é
consolidado como o maior símbolo do bairrismo líquido de Minas Gerais passou
por uma origem rebelde e uma crise de identidade nos bastidores industriais. A
história desse clássico — fundado oficialmente no ano de 1940 — é fruto de uma
lenda de insubordinação operária que só se emancipou de fato quando conquistou
o seu primeiro casco de vidro próprio.
Aproveitando o maquinário e os insumos da fábrica de bebidas, ele
combinou a base do guaraná da empresa com essências concentradas de maçã e
outros extratos aromáticos secretos, criando um refri artesanal. O experimento clandestino logo foi
descoberto pelo supervisor da planta. Chamado às pressas para a temida sala da
gerência, o operário tinha certeza de sua demissão imediata por justa causa. Para
a surpresa de todos, o chefe preferiu testar o líquido antes de aplicar a
punição. Ao dar o primeiro gole, o supervisor ficou impressionado com o paladar
exótico. Em vez do bilhete de demissão, o funcionário recebeu elogios do novo refrigerante e o
direcionamento para que a fórmula inédita fosse patenteada e lançada
comercialmente naquele mesmo ano.
Apesar do sucesso imediato da receita que misturava o aroma
de maçã com um icônico sabor de tutti-frutti, o Guarapan enfrentou um grande
desafio logístico inicial. Por ser uma bebida puramente regional e de produção
controlada, a Remil não via viabilidade financeira para encomendar lotes
exclusivos de garrafas personalizadas junto às vidrarias.
Durante suas primeiras décadas de vida, o Guarapan funcionou como um "hóspede" em cascos alheios. O líquido era envasado em "garrafas genéricas" ou vasilhames emprestados de outras marcas de refrigerantes da empresa. O consumidor de Belo Horizonte precisava caçar a bebida nas geladeiras pelas tampinhas de metal específicas ou por rótulos de papel que se descolavam facilmente na água e no gelo dos balcões. No mercado da época, o produto corria o risco constante de ser visto apenas como uma linha secundária. Com o passar do tempo, o refrigerante ganhou uma garrafa própria para chamar de seu. Virou o companheiro dos salgados tradicionais nas lanchonetes da Capital Belo Horizonte. Coxinhas, pastéis, empadas, quibes são as melhores combinações. Além da garrafa de 290ml, havia também o refrigerante servidos por meio de post-mix, em copos descartáveis.
As tradicionais garrafas de vidro de 290ml e 600ml marcaram épocas até os anos 1990. Hoje, elas são consideradas itens raros de coleção, enquanto a bebida é comercializada principalmente em PET ou latas. Se você vier para Minas Gerais, sobretudo na Capital, não deixe de tomar um refrigerante Guarapan.
Você irá se surpreender.
Fotos do refrigerante antigo: IA.