O valor oculto dos ativos alternativos: os roubos
milionários na Europa, a vulnerabilidade sacra no Brasil e a urgência da gestão
de riscos
por Henrique Oliveira*
O recente e audacioso roubo de 30 mil garrafas de vinho
premium na vinícola Marchesi Antinori, na Itália, avaliado em cerca de R$ 28
milhões (€ 5 milhões), acendeu um alerta global sobre a vulnerabilidade de
ativos de luxo e colecionáveis. Longe de ser um caso isolado, o crime se
conecta diretamente a uma ousada onda de assaltos a patrimônios históricos e
culturais na Europa. Entre eles, destacam-se o cinematográfico roubo das Joias
da Coroa Francesa no Museu do Louvre, avaliado em € 88 milhões, e o impressionante
assalto ao Museu de Artes Aplicadas (MAK) de Viena, na Áustria, onde um colar
de diamantes de mais de 200 quilates foi levado em plena luz do dia.
Esses episódios revelam que itens de admiração e
contemplação se tornaram alvos prioritários de redes criminosas altamente
especializadas. Mais do que perdas financeiras brutas, os incidentes expõem a
necessidade crítica de uma gestão de riscos integrada e sistemas de segurança
avançados capazes de manter o ativo intacto e, simultaneamente, salvaguardar
sua autenticidade no mercado.
Essa vulnerabilidade global expõe uma falha cultural
profunda: a completa ausência de percepção de valor e de risco por parte dos
próprios proprietários e guardiões desses acervos. Enquanto quadrilhas
internacionais enxergam commodities financeiras de alta liquidez em itens
históricos, os gestores locais frequentemente os tratam apenas sob a ótica da
tradição, da contemplação ou da fé, ignorando sua atratividade econômica para o
crime organizado. Trata-se de uma miopia do risco, com forte viés cognitivo de impacto.
Um reflexo mais trágico dessa miopia ocorre no Brasil, no
interior de Minas Gerais, Rio de Janeiro e da Bahia, onde igrejas barrocas e
capelas centenárias abrigam imagens sacras de valor incalculável sem apresentar
sequer estruturas mínimas de segurança, como sensores de presença, câmeras de
monitoramento ou inventários digitais atualizados. Ao negligenciar a gestão de
riscos elementar em ambientes com baixo índice de proteção patrimonial, os
donos do risco transformam templos históricos em alvos fáceis, vulneráveis.
Eles permitem que a memória cultural do país seja sistematicamente saqueada e
pulverizada no mercado clandestino devido à falsa premissa de que o sagrado ou
o tradicional estão imunes à ganância do capital.
Os crimes europeus demonstram um planejamento logístico
meticuloso, operado por quadrilhas que compreendem perfeitamente o valor
comercial e a liquidez desses ativos alternativos. Muitas vezes o detentor do
riscos não compreende o paradoxo do valor, ou seja, esses não associam que
ativos largamente admirados são alvos econômicos.
Tradicionalmente, obras de arte, joias dinásticas e vinhos
de safras lendárias eram considerados "seguros" contra roubos de
grande escala por um motivo simples: sua rastreabilidade. Um quadro de Monet ou
uma tiara da Imperatriz Eugênia são tão famosos que se tornam impossíveis de
comercializar no mercado formal.
No entanto, a Europol e agências de inteligência apontam
para uma mudança crucial no perfil do crime organizado. Eles realizam a
destruição do Patrimônio para extração de matéria-prima. Criminosos modernos
não buscam colecionadores excêntricos no mercado negro. Eles desmontam as joias
históricas, arrancam os diamantes e derretem o ouro. O valor histórico é
pulverizado para que a commodity pura seja vendida de forma anônima.
No caso das 30 mil garrafas da Marchesi Antinori, o desafio
dos ladrões é a conservação (Trata-se da Rastreabilidade Condicional do vinho).
Como o mercado de vinhos de luxo exige um rigoroso histórico de armazenamento
térmico para validar o valor de cada garrafa, esses lotes costumam ser
desovados rapidamente para canais de distribuição paralelos fora da Europa,
antes que a cadeia de suprimentos formal consiga rastrear os lotes.
As falhas relatadas nos sistemas de segurança do Museu do
Louvre e da vinícola italiana — que espelham, em maior escala, a precariedade
das paróquias brasileiras — provam que apenas possuir barreiras parciais ou
contar com a sorte não é o suficiente. Em resposta estratégica em termos de
gestão de riscos e salvaguarda ativa, manter o ativo intacto e protegido exige
uma infraestrutura de governança de riscos dividida em três pilares
fundamentais.
1. Redundância Tecnológica e Sistemas Anti-Intrusão Ativos
Museus, centros logísticos de artigos de luxo e templos
religiosos precisam migrar de segurança passiva (gravação simples de câmeras ou
trancas frágeis) para segurança ativa. Isso envolve a implementação de sensores
de vibração acústica de espectro nas vitrines, softwares de inteligência
artificial analítica acoplados ao CFTV para detectar comportamentos anômalos e
blindagens físicas que resistam a ferramentas industriais por tempo suficiente
até a chegada das forças táticas.
2. Mitigação do Risco Interno (Insiders) e Protocolos de
Acesso
Tanto na Itália quanto no Louvre ou em Vienna, os
investigadores apontam para a alta probabilidade de informações privilegiadas
("insider threat"). O controle de riscos patrimoniais exige
auditorias de antecedentes, rotatividade severa de códigos de segurança, e a
segregação de funções em que nenhuma pessoa isolada possua as credenciais
necessárias para desarmar zonas inteiras de monitoramento.
3. Gestão Financeira e Apólices de Seguro Estruturadas
O roubo da vinícola Antinori trouxe à tona outra dura
realidade corporativa: grandes apólices de seguro frequentemente possuem
exclusões ou tetos que não cobrem a totalidade de perdas dessa magnitude. No
âmbito estatal, o próprio governo francês atua como autossegurador dos museus
nacionais, significando que o prejuízo de € 88 milhões do Louvre é absorvido
diretamente pelo erário público e pelo dano histórico incalculável. A
governança corporativa e institucional moderna exige que o gerenciamento de
riscos alinhe a proteção física à saúde atuarial da organização.
Nessas circunstâncias, o espetáculo trágico dos expositores
vazios em Paris e em Viena, dos paletes esvaziados na Toscana e dos altares
desfigurados nas cidades históricas brasileiras é o teste definitivo de que, na
economia globalizada, o valor da beleza e da tradição caminha de mãos dadas com
o rigor tecnológico de sua proteção. Nesse sentido, com o diagnóstico pronto,
cabe reescrever os protocolos e enfatizar a sua efetiva execução.
(*) Henrique Oliveira é Executivo Sênior de Governança, Riscos e Compliance
Fontes: https://clickpetroleoegas.com.br/mesmo-com-o-alarme-disparado-ladrao-entrou-em-museu-de-viena-por-um-andaime-levou-escultura-renascentista-de-ouro-avaliada-em-mais-de-us-60-milhoes-e-terminou-escondendo-a-obra-debaix-fcmo87/
https://www.youtube.com/watch?v=pBSdm2x8bsY
https://www.infomoney.com.br/business/global/roubo-de-30-mil-garrafas-em-vinicola-italiana-pode-ser-o-maior-da-historia-do-vinho/