por Henrique Oliveira*
Após escrever o livro Brasil Beer - O Guia de Cervejas Brasileiras,
decidi que era hora descrever um segundo livro, dessa vez voltado às
cervejarias de Minas Gerais. O trabalho de pesquisa, que durou aproximadamente 8 anos, demonstrou
claramente que famílias empresárias no final do Século XIX e início do Século XX dedicavam integralmente aos seus negócios, face
a limitação de recursos, a existência de pouco profissionais especializados e o bairrismo, ainda que velado. Dessa
forma, os pais passavam o ofício para os filhos, incluindo os segredos de produção ou "segredos de família", o que incluía fórmulas, ingredientes e receitas, que eram guardados a sete chaves.
Imigrantes e brasileiros, tinham como foco atender o cliente
com cortesia e atenção. Mesmo com empregados inicialmente capacitados, o olhar do dono
sobressaía em toda operação. Era perceptível o zelo e a união de pai com os filhos e entre irmãos. Essa proximidade era comumente refletida em placas publicitárias, nos rótulos de
garrafas e na razão social das cervejarias, com os dizeres: “Carlo Fornaciari
& Filhos”; “Gino & Irmão”, “Irmãos Menecucci”, entre outros. O que se
observava, era um retrato nítido de que tradição e legado caminharam juntos, buscando
perpetuar a presença da família empresária no seu setor de atuação.
Por incrível que pareça, as diversas entrevistas que fiz para o livro mineiro de cervejas, com descendentes de produtores e industriários teve como destaque, as mulheres. Por um fato muito simples: a expectativa de vida das mulheres é maior do que a dos homens. Nesse sentido, a maioria dos descendentes, acima dos 70 anos eram, predominantemente, do sexo feminino. Ao entrevistá-las, percebia que as histórias estavam rasas ou fragmentadas, porque o patriarca da família conversava mais com os filhos homens do que as filhas, em termos de negócios. Muitas filhas foram tolhidas de participar das atividades da empresa, seja em reuniões, na liderança ou na decisão de negócios, ou ainda assumir alguma função dentro das instalações.
Ao longo da jornada, a presença da mulher em cervejarias, se fundamentou com as Viúvas. Ser viúva
naquela época era quase que um "título de nobreza", pois a sociedade interpretava
que aquela era a esposa do “tal notório empresário” e que essa era digna de
respeito e admiração, pois assumia as rédeas do negócio, logo após a morte do cônjuge. Destaca-se por
exemplo do famoso champagne Veuve Clicquot. O aclamado espumante da "Viúva do
senhor Clicquot". Cita-se a Madame Bollinger, do champagne de mesmo nome ou ainda, a Viúva
Kremer de Castro, da Imparcial Fábrica de Cervejas de Juiz de Fora, que assumiu o negócio, após a morte do esposo, Augusto Kremer. (Irmão de Henrique Kremer, da Cia. Cervejaria Bohemia, de Petrópolis.)
Procurando incrementar essa evolução e gerar um pouco de consciência sobre o trabalho, levo comigo minhas descendentes à convivência do universo cervejeiro, mesmo sabendo que sua geração está prestes a não se interessar por bebidas alcóolicas, haja vista que essa já não possui sequer o hábito de beber refrigerantes (o que é salutar). A sua geração é havida aos chás, aos isotônicos, aos sucos e a água. Ao introduzi-las naquele ambiente, o que importa é entender que todo trabalho é duro, digno e, quando feito com seriedade e dedicação, o resultado positivo virá naturalmente. Isso é buscar a satisfação profissional.
Dito isso, acredito que a presença delas fazem toda a diferença no setor de bebidas, seja destilado ou fermentado, o que inclui a cerveja. O capricho no desenvolvimento de produtos naturalmente aumenta, como as nuances de cor, aromas, tato e sabores. Há uma dose generosa de empreendimento, criatividade e inovação, tornando o setor de cervejas e bebidas cada vez melhor. No mês da mulher, que será comemorado no dia 08 de março, o brinde é destinado à elas! Vida longa e sucesso pleno, mulheres cervejeiras.Cheers! Saúde!
(*) - Henrique Oliveira, é Executivo de Estratégia, Governança, Riscos e Compliance e escritor de livros e artigos sobre bebidas e cervejas.
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