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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Kloster Andechs

 

Minha visita à Andechs: um dos Mosteiros Beneditinos Mais Antigos da Alemanha

Há alguns anos atrás, tive oportunidade de me despedir de Munique com destino ao povoado de Andechs. Quando cheguei na região, me lembro que não havia conseguido hospedagem (na época não havia internet para fazermos reservas on-line). Um recepcionista de um hotel local me deu a dica em dormir no Chevrolet Astra que havia alugado, no estacionamento do Mosteiro de Andechs, mais conhecido por Kloster Andechs, um dos mosteiros mais antigos da Alemanha.

No dia seguinte, tão cedo bateram os raios de sol, o calor tomou conta do interior do veículo. Com um pouco de água mineral, consegui lavar meu rosto e escovar os dentes. Desci do carro, ajustei a roupa, e resolvi tirar algumas fotos do lado externo daquele mosteiro da Ordem de São Bento. Um monge passou pela calçada e me indicou o caminho da entrada.


A Abadia de Andechs é um dos centros espirituais e gastronômicos mais fascinantes da Alemanha. Erguido no topo de uma colina a leste do lago Ammersee, o complexo atrai tanto peregrinos religiosos em busca de suas relíquias medievais quanto entusiastas da cultura cervejeira mundial.

A tradição cervejeira oficial do mosteiro beneditino teve início no ano de 1455, data em que os monges beneditinos vindos de Tegernsee se estabeleceram no local, a convite do Duque Alberto III. O direito oficial de produzir e servir cerveja constava diretamente no documento de fundação do mosteiro.

A Igreja é imponente e estava parcialmente em reforma. Do alto, se observava um vale imenso, bonito que merecia tirar uma bela foto. Realizei as minhas preces agradecendo pelo momento em que me encontrava. Tive o privilégio em ser o único visitante naquele início da manhã. Havia um segundo monge, que ajustava uma peça sacra na igreja. Fui até ele para perguntar sobre a cervejaria. O sacerdote apontou-me para uma pequena escadaria, localizada dentro da Igreja, que me levou para a parte debaixo do templo.

Ao chegar na cervejaria da monastério, (fui o primeiro visitante) vi um monge mais sênior carregando uma bandeja imensa de joelhos de porco totalmente fritos. Pasme! Havia pelo menos 60 peças. Até esse ponto tudo bem, algo normal para uma cervejaria típica que oferece alimentos para seus consumidores. O que realmente me chamou a atenção, foi quando um cidadão alemão entrou na cervejaria. Vestido a caráter, usando traje Lederhosen – a tradicional bermuda de couro bávara, meiões brancos, sapatos em couro, além de suspensórios e utilizando chapéu tirolez, aquele senhor de, aparentemente uns 50 anos, abriu por meio de um molho de chaves, um armário de krugs ("caneco", em alemão). Ele retirou a sua caneca personalizada, pediu ao monge para lavá-la. Na sequência, solicitou que a enchesse de cerveja. Isso, às 9:00 da manhã! O senhor cervejeiro veio a minha direção. Sentou-se ao meu lado, olhou para mim, de cima a baixo, e resmungou: “E você? Está fazendo o quê por aqui? Não vai tomar uma comigo não?! Cadê meu companheiro?” 


Com tamanha ordem, tive que atender a solicitação de quem era, certamente, um fiel cliente da casa. Não se passaram 40 minutos, o salão estava tomado de vizinhos e confrades. Não havia turistas até aquele momento, o que para mim foi um privilégio e um luxo, em termos de exclusividade e experiência gastronômica. Jamais pensaria em tomar uma cerveja de abadia e comer comidas típicas com cidadãos de Andechs em pleno horário do café da manhã! Foi algo memorável.

Lembro-me de ter tomado uma cerveja alemã pilsen e finalizado com uma Andechser Doppelbock Dunkel, com 7,1% de teor alcóolico. Todas aquelas maravilhas elaboradas de acordo com a Reinheitsgebot de 1516. Historicamente, essa Doppelbock cerveja era o "pão líquido" consumido pelos monges durante os rigorosos períodos de jejum da Quaresma. Em Andechs, essa variedade icônica de cerveja escura e encorpada é fabricada e distribuída ao longo do ano inteiro, uma cerveja de terroir autêntico. Da loja de souvenires, trouxe alguns porta-copos e uma caneca que a tenho com bastante apreço. É a marca da lembrança deste meu passeio cervejeiro cultural na Europa.

Desde aquela época até os dias de hoje, a cervejaria do mosteiro de Andechs é um negócio essencial para manter a autossuficiência da comunidade. Todo o lucro gerado pela venda das bebidas é revertido na manutenção do mosteiro e em projetos sociais, como o auxílio a pessoas em situação de rua em Munique. A propósito, a fábrica de cervejas é moderna. Não se trata de uma cervejaria medieval ou rudimentar.

A seguir, deixo os comentários que fiz no guia Fodor's Econômico Alemanha (1995), que também o utilizei em outras viagens que fiz por aquele país. Esse guia era o único disponível na época. (O Guia da Folha de São Paulo foi lançado anos mais tarde.)


Se você estiver ou for na Baviera, não deixe de conhecer esse lugar ícone. Tomar cerveja em um mosteiro alemão será algo realmente marcante na sua viagem. Eu garanto!

Prosit!

Mais informações: https://www.andechs.de/en/monastery-brewery.html

Para agendar uma visita guiada acesse: https://timeride.de/aktualisierungsmassnahmen-muenchen/

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Reinheitsgebot 510 anos

Reinheitsgebot: A Lei que Moldou a Cerveja como a Conhecemos há 510 anos

Hoje é dia! Se você gosta de ler rótulos de cerveja, com certeza já cruzou com a palavra Reinheitsgebot. Mas o que esse termo impronunciável para muitos significa e por que ele ainda é motivo de orgulho para tantas cervejarias, mais de 500 anos depois?

O Nascimento da Pureza se deu quando foi promulgada, em 23 de abril de 1516, pelo Duque Guilherme IV da Baviera, a Reinheitsgebot, a famosa Lei da Pureza da Cerveja Alemã. Ela é considerada uma das regulamentações de segurança alimentar mais antigas do mundo ainda em vigor. Originalmente, a lei era curta e grossa: a cerveja só poderia levar três ingredientes: água, malte de cevada e lúpulo. (Há um bar em Viena que se chama 1516, em homenagem à Lei.)

Você, cervejeiro que é, deve estar se perguntando: "E a levedura?". Em 1516, a ciência ainda não sabia que os microrganismos existiam. O processo de fermentação era visto quase como um milagre — os cervejeiros simplesmente reutilizavam o sedimento de uma leva anterior. Foi apenas séculos depois, com os estudos de Louis Pasteur, que a levedura foi oficialmente reconhecida e adicionada à lista permitida.

A lei imposta, teve foco em três objetivos:

Proteção ao Consumidor: Evitar que ervas tóxicas ou ingredientes bizarros (como cogumelos alucinógenos) fossem usados para baratear a produção. (Há também a versão de que o governo recebia, em forma de pagamento de impostos, a entrega compulsória de cervejas, essas muito ruins, mal feitas. A adulteração da bebida, usando adjuntos, certamente irritou a Monarquia naqueles tempos.)

Segurança Alimentar: Reservar o trigo e o centeio para os padeiros foi uma estratégia. Se os cervejeiros usassem esses grãos, o preço do pão disparava e o povo corria o risco de passar fome.

Padronização: Criar um perfil de qualidade, colocaria as cervejas da Alemanha num patamar de referência técnica, no mercado de cervejas, que se tornaria a marca registrada da Alemanha.

Atualmente, a Reinheitsgebot não é mais uma obrigação legal, rígida para todas as cervejas (especialmente as importadas ou estilos especiais na Alemanha), mas continua sendo um selo de prestígio nacional. No movimento das artesanais, ela divide opiniões: de um lado, os tradicionalistas que prezam pela técnica pura; de outro, os inovadores que querem usar frutas, especiarias, condimentos e outros adjuntos.

Seja você um purista ou um fã de ousadias, o fato é que a Reinheitsgebot ensinou o mundo a respeitar a base da cerveja. Quando uma bebida é feita apenas com quatro ingredientes e, ainda assim, entrega uma complexidade absurda de aromas e sabores, sabemos que ali existe a verdadeira maestria do mestre cervejeiro.

Um brinde! Vou celebrar a data com uma caneca especial. Prosit!

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