O Gosto da Saudade: A Fascinante História do Refrigerante
Crush e Seu Legado no Brasil
Observar o apresentador Ratinho surpreso ao pegar em uma garrafa do Refrigerante Crush para mim foi motivo de alegria, com uma dose de nostalgia. Ao ver seus comentários em sua rede social, resolvi escrever esse breve artigo, transmitindo para de sua satisfação.
Se você viveu a infância ou a juventude no Brasil entre as décadas de 1960 e 1980, certamente se lembra da sensação de segurar uma garrafa de vidro pesada, canelada, e dar uma leve chacoalhada antes de abri-la. Esse ritual pertencia aos consumidores do Crush, um dos refrigerantes mais icônicos do século XX. Embora tenha desaparecido das gôndolas brasileiras, a marca deixou uma marca profunda na memória afetiva do país. Conheça a trajetória completa dessa bebida, desde sua criação nos Estados Unidos até o sumiço dos supermercados nacionais.A jornada do Crush começou 1906 por JM Thompson em Chicago nos Estado Unidos. Em 1911, na cidade de Los Angeles, Califórnia, a fórmula original foi aprimorada o químico de bebidas e extratos Neil C. Ward. A receita inovava ao utilizar o óleo extraído diretamente da casca da laranja para conferir o sabor e o aroma característicos, adicionando o suco da própria fruta anos depois, em 1921. O refrigerante ganhou escala comercial em 1916, quando Ward uniu forças com o empresário Clayton J. Howell para fundar a Orange Crush Company. O sucesso foi imediato e o refrigerante rapidamente cruzou fronteiras.
A Chegada ao Brasil e o Modelo de Franquias
O refrigerante desembarcou em solo brasileiro na década de 1930. Para se expandir pelo território nacional, a detentora internacional dos direitos — que mais tarde passou a ser a multinacional Cadbury Schweppes — adotou um modelo de negócios baseado em franquias e licenciamentos regionais. A matriz fornecia o extrato concentrado da bebida, enquanto indústrias de refrigerantes regionais brasileiras ficavam encarregadas do engarrafamento e da distribuição regional. Entre as fábricas mais famosas que operaram a marca no Brasil, destacam-se a Indústria de Refrigerantes Pakera (no Rio de Janeiro), a Indústria de Refrigerantes Golé (em Uberaba, Minas Gerais) e a Refrigerantes Zago (que produziu a bebida em Uberlândia entre 1969 e 1976). No mercado brasileiro, o Crush Laranja era visto por muitos como o melhor refri de sua categoria, superando os concorrentes diretos em intensidade. O público o idolatrava por sua cor laranja-avermelhada muito vibrante, textura marcante e um sabor cítrico mais encorpado e doce do que o da Fanta. Embora a laranja fosse o carro-chefe absoluto, a marca explorou outras frentes como o sabor Uva que foi lançado no mercado nacional na década de 1970 para competir no segmento de frutas escuras. O sabor Caju, uma versão regionalizada e limitada chamada Crush Cajuína chegou a ser lançada no Nordeste brasileiro em 2011, fruto de uma parceria com a Norsa (franqueada Coca-Cola).
No exterior, a linha se estendeu por sabores como limão
(Lemon e Lime), cereja, pêssego, morango e abacaxi.
"Mexa, Mexa!": A Identidade nos Comerciais e no Vidro
Diferente da concorrente Grapette, que imortalizou o jingle
"Quem pede Grapette, repete", o Crush apostava em destacar a
qualidade de sua fórmula. Na década de 1970, o slogan mais marcante das
campanhas de TV e impressas foi: "Crush: Mexa, Mexa!". O anúncio era
um aviso funcional: o consumidor precisava agitar levemente a garrafa antes de
abrir para misturar o legítimo extrato e os gomos da fruta que se acumulavam no
fundo do casco.
Por que o Crush Desapareceu do Brasil? Eis a pergunta de um milhão de dólares. O declínio e o consequente sumiço do Crush das gôndolas brasileiras ocorreram ao longo da década de 1990, motivados por dois grandes fatores de mercado. Houve o fim dos Contratos de Franquia. A Cadbury Schweppes optou por descontinuar e não renovar as licenças de engarrafamento com as fábricas regionais independentes (como Pakera e Golé), fragmentando a distribuição. Adicionalmente, os direitos da marca Crush foram adquiridos pela The Coca-Cola Company em diversos mercados internacionais na virada dos anos 1980 para os 1990. Como a Coca-Cola já tinha a Fanta Laranja consolidada como sua principal força no segmento, a empresa optou por retirar o Crush de circulação no Brasil para evitar a concorrência interna (canibalização de vendas) e focar os investimentos em um único produto.
Apesar da ausência no Brasil, o Crush está longe de estar extinto. Ele continua sendo comercializado com enorme força em países como os Estados Unidos (onde os direitos pertencem à Keurig Dr. Pepper e a distribuição é feita pela PepsiCo), além de Canadá, México, Reino Unido e diversas nações da América Latina. Em solo brasileiro, ao Soft Drink restou aos entusiastas recorrer a lojas físicas e virtuais especializadas em produtos importados para garantir uma lata da bebida.
Relembrar o Crush é fazer uma viagem no tempo direto para os
anos 60, 70 e 80, uma época em que os dias pareciam passar mais devagar. O
estalo inconfundível da tampinha de metal sendo removida pelo abridor era o
prenúncio de uma felicidade simples, sinônimo de festas de aniversário no
quintal, almoços de domingo com a família reunida e tardes quentes jogando
conversa fora na calçada. Segurar aquela garrafa pesada de vidro canelado, dar
uma leve mexida para misturar o gominho da fruta e sentir o primeiro gole
gelado e efervescente do refrigerante era a tradução perfeita da infância. O Crush pode ter
deixado as prateleiras dos nossos supermercados, mas o seu sabor cítrico e
inconfundível permanece para sempre guardado no paladar da nossa memória.
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