Pioneira no mercado de cervejas artesanais desde 1999,
gigante cearense culpa "Efeito Ozempic", juros asfixiantes e câmbio
alto por crise financeira; atendimento e fábricas seguem operando normalmente.
O mercado de bebidas premium e gastronomia do Nordeste foi
surpreendido com o acolhimento do pedido de recuperação judicial do Grupo
Turatti, uma das marcas mais tradicionais e condecoradas do setor. O processo,
aceito pela 1ª Vara Empresarial de Recuperação de Empresas e de Falências do
Estado do Ceará, envolve uma dívida acumulada superior a R$ 12 milhões. A
medida engloba oito empresas sob o guarda-chuva da holding e visa renegociar os
débitos de forma coletiva, evitando a interrupção das atividades.
Uma História de Sucesso na Cultura Cervejeira do Nordeste
Fundada em 1999 pelo empresário Lissandro Turatti, a marca nasceu com o
propósito de introduzir a cultura do malte e do lúpulo de alta qualidade em uma
região até então dominada pelas cervejas comerciais de massa.
Na peça jurídica apresentada à Justiça, a defesa do grupo
expôs argumentos inovadores sobre as transformações no comportamento do
consumidor pós-pandemia. Segundo os relatórios, o mercado de alimentação fora
do lar e de bebidas alcoólicas foi duramente golpeado por fatores biológicos e
geracionais.
O avanço dos emagrecedores e o uso massivo global e nacional
de medicamentos voltados à perda de peso (como o Ozempic) gerou,
comprovadamente, uma diminuição acentuada no apetite e na ingestão de álcool
por parte do público consumidor de maior poder aquisitivo. Adicionalmente, a
sobriedade da Geração Z tem demonstrado um desinteresse estrutural pelas
bebidas alcoólicas tradicionais, migrando o lazer para ambientes
predominantemente digitais e hábitos voltados ao bem-estar e à saúde. Em um
tempo mais distante, observou-se também um esvaziamento dos salões dos bares edas cervejarias. O hábito corporativo do happy hour presencial reduziu
significativamente em Fortaleza, com o público optando pelo consumo caseiro ou
por opções mais econômicas.
A estratégia agressiva de expansão e consolidação de mercado executada pela Turatti esbarrou diretamente na política monetária brasileira dos últimos anos. Com a Taxa Selic mantida em patamares elevados, o custo para a rolagem de dívidas e financiamento do capital de giro tornou-se proibitivo. Fontes ligadas à área financeira da empresa apontam que captar recursos no mercado bancário se tornou inviável para empresas de médio porte, forçando o grupo a buscar o amparo legal da recuperação antes que o fluxo de caixa travasse as operações cotidianas.
Além da retração de público e dos juros altos, a
instabilidade do câmbio no Brasil agravou fortemente a produção das cervejas
premium. Como a fabricação artesanal depende diretamente da importação de
insumos essenciais (como maltes especiais da Europa e lúpulos selecionados dosEstados Unidos), a persistente desvalorização do Real frente ao Dólar
inflacionou de maneira drástica o custo por litro produzido. "Em uma
cadeia de nicho, o repasse integral de custos alfandegários para o cardápio ou
para as gôndolas dos supermercados faria a cerveja sumir das mãos do cliente.
Fomos obrigados a espremer nossas margens de lucro até o limite", revela
um sommelier ligado à produção da marca.
As operações das casas na Varjota e no North Shopping Fortaleza, bem como a fábrica central localizada na Lagoa Redonda, seguem em pleno funcionamento. Os postos de trabalho de cerca de 240 colaboradores diretos foram preservados para assegurar o plano de reestruturação que será apresentado aos credores nos próximos meses.
A seguir, com a palavra, o cervejeiro da Turatti, Adriel Oliveira.
Foto por Mah Cavalcanti e Site Turatti.
